Rap tcheco

21 de abril de 2010
Relógio da Prefeitura, Cidade Velha, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

Relógio da Prefeitura, Cidade Velha, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

O tempo em uma viagem se divide em duas categorias: o tempo fora do aeroporto e o tempo dentro do aeroporto.

Felizmente, o tempo no aeroporto costuma ser bem mais curto (mas isso também depende de fatores como a Anac ou nuvens de cinzas vulcânicas da Islândia). Este tempo pode ser também dividido em AC e DC: antes do check-in e depois do check-in.

Naquela manhã nublada no aeroporto de Ruzyne, em Praga, ela tomava um capuccino lentamente, ainda em AC. Olhou para o relógio mais uma vez e resolveu adiantar o check-in antes que as hordas de torcedores da final da Copa do Mundo de Hóquei sobre o Gelo, que tomaram Praga naquele final de semana, invadissem todos os terminais.

Quando abriu a bolsa para pagar o café percebeu um pequeno desastre: o passaporte tinha ficado no hotel!

Maldita hora em que concordou em deixar o passaporte da portaria, nunca mais ia fazer isso. E se eles pegam o passaporte para fazer alguma falsificação e outra dela pode andar por aí e ser procurada pela Interpol?

Mas, naquele momento não havia tempo para conspirações. Saiu arrastando a mochila pelo aeroporto até chegar aos táxis.

Depois de algumas tentativas, algumas poucas palavras em tcheco grunhidas com a ajuda de um dicionário e muitos, mas muitos sinais, ela conseguiu fazer o taxista entender que eles precisavam ir voando para o hotel, pegar o passaporte, e voltar voando ainda mais rápido para o aeroporto.

Ao compreender o tipo de missão que tinha que cumprir, o taxista bigodudo enterrou o boné na cabeça, fechou o casaco e sorrindo de um jeito estranho, arrancou cantando os pneus.

A esta hora, as já citadas hordas do hóquei estavam a caminho do aeroporto. Mas, um congestionamento daquele tamanho não era problema para o motorista do táxi. Ele simplesmente aumentou o rádio e começou a costurar entre os carros.

Depois de muitas ruas terminadas em ové ou ská, eles se aproximaram do centro de Praga, o trânsito piorou ainda mais, com mais ônibus, vans e micro-ônibus saindo dos hoteis.

Nada abalava o motorista bigode-de-Magnum, ele apenas virava para trás de vez em quando sorrindo, acelerando e falando num inglês quase incompreensível.

Placa de informações, Cidade Velha, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

Placa de informações, Cidade Velha, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

´´Muito carro!´´

Ela só conseguia responder com um sorriso amarelo de tão nervoso e apontando para frente, tentando convencer o motorista que era mais importante olhar para frente, e não para ela.

Ao virar mais uma esquina, já se aproximando da Cidade Nova, a única pista livre de trânsito eram os trilhos do bonde. E o motorista bigode-de-Magnum, sorrindo, viu uma avenida Paulista inteira naquele espaço.

O que ele não viu foi o bonde atrás deles. O bonde por sua vez, tentava se fazer ouvir, buzinando sem parar (se é que bonde tem buzina).

Enquanto o carro voava por cima dos trilhos, com o rádio no volume máximo se misturando com a buzina do bonde colado na traseira do carro, ela teve um daqueles momentos de lucidez.

´´Então é isso. Eu vou morrer em Praga, dentro de um táxi, esmagada por um bonde e ouvindo rap. Em tcheco.´´

A buzina deve ter atrapalhado a música, pois o motorista parou de sorrir e colocou o braço para fora do carro fazendo sinais, como se mandasse o bonde passar por cima. E devia estar mandando mesmo, só ela que não entendia os berros em tcheco.

O bigode-de-Magnum finalmente jogou o carro para uma outra rua transversal, e, na contramão, subiu na calçada do hotel, na avenida Legerova.

Ela se soltou do cinto de segurança, saltou do carro e, por via das dúvidas, só conseguiu falar em inglês ´´Espere aqui´´.

Ela entrou zunindo no prédio antigo e foi até o balcão, onde a recepcionista tomou um susto. Ela tentou falar em inglês e, sabe-se lá a razão, tentando inventar um sotaque tcheco que saiu mais com jeito de alemão: “Passsspôrt!´´.

A recepcionista, sem entender a razão do sotaque, respondeu em inglês: ´´Nome, por favor?´´

Ela tentou falar, soletrar, linguagem de sinais. Até que lembrou do comprovante de reserva que tinha imprimido quando escolheu o hotel pela internet.

Com cara de enfado, a recepcionista olhou o papel, pegou o passaporte no cofre e entregou. Ela nem ouviu o suspiro de tédio, arrancou papel e passaporte da mãos dela e saiu correndo para entrar de volta no táxi do bigode-de-Magnum.

Bonde, Cidade Nova, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

Bonde, Cidade Nova, Praga (Foto: Flavia Nogueira)

O trânsito de volta estava ainda pior, mas o motorista tinha adorado a ideia de correr pelos trilhos do bonde ouvindo rap misturado com buzina, o que adiantou bastante dentro da cidade. Ela até quase foi esmagada pelo bonde 22, rota na qual ela passeou a viagem inteira.

´´Um último passeio, não deixa de ser engraçado…´´, ela pensou já resignada com a idéia do esmagamento.

Saindo do centro de Praga, as vias para o aeroporto estavam praticamente paradas. E só faltava meia hora para terminar o prazo do check-in. Ela olhou para o relógio já calculando quanto custaria uma outra passagem de volta a Londres.

Mas o taxista entendeu o gesto como um incentivo e resolveu simplesmente sair da pista e atravessar o canteiro.

´´Desvio, desvio´´, ele falava em inglês olhando para trás, enquanto o táxi ia se ralando todo nas plantas.

O táxi entra em algumas ruas na contramão, anda por cima de canteiros, com os palavrões em tcheco do motorista se misturando com o rap tcheco do rádio.

Até que uma rua com menos trânsito surge do nada e o aeroporto bem à frente. O bigode-de-Magnum quase dá um cavalo de pau e estaciona em frente à entrada. Ela joga as duas mil coroas combinadas, pega a mochila e a bolsa e sai correndo pelo terminal. Mas tem parar depois de uns metros, pois o terminal estava lotado com as hordas do hóquei.

Disparando ´´com licença´´ em inglês, feito uma metralhadora, ela foi pulando um aqui e outro lá até finalmente chegar ao seu balcão de check-in, já esperando ter que gastar para tentar embarcar em outro avião.

A fila dava voltas e, depois de perguntar, ela viu que todos daquela fila iam pegar seu voo, que já estava atrasado. Quase uma hora depois ela chega ao balcão, perguntando se o avião já tinha saído.

A funcionária revira os olhos e fala que não ia sair tão cedo, com esta fila toda.

Ela parte para o setor de embarque, arrastando bolsa e tentando nadar no meio da multidão de torcedores. Faz sinais, tenta explicar em inglês misturado com as duas palavras em tcheco que sabia sem o dicionário (prosim para por favor e dekuji vám para obrigada), atropela alguns sujeitos bem maiores do que ela, sabe-se lá como.

Até que finalmente ela chega ao embarque, passa por corredores apertados com tanta gente que saía não se sabe de onde, chega ao avião.

Encontra sua poltrona, ajeita sua bolsa debaixo da poltrona da frente e, por via das dúvidas, pega o passaporte e coloca debaixo da camiseta, preso na alça do sutiã.

Ela já começa a cochilar quando um comissário de bordo anuncia com aquele sotaque que o voo iria atrasar.

Três horas.

Rap Tcheco com Indy A Wich

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Waterloo Sunset

22 de março de 2010
Big Ben e Parlamento - verão de 2001 (Foto: Flavia Nogueira)O verão de 2001 foi muito generoso em Londres, pelo menos era o que todos falavam. Ela não saberia dizer, era o primeiro verão na cidade.
Enquanto os londrinos reclamavam e falavam que os dias estavam “too sticky”, ela se esbaldava andando no final de tarde (que durava até 21h, graças ao horário de verão), cozinhava no calor das cabines da London Eye, tomava algum sorvete sem gosto ou perambulava pelos parques lotados.
Mesmo em setembro o clima continuava bom, longos dias de sol, calor forte no metrô. E o único sinal de que os atentados tinham ocorrido do outro lado do Atlântico (fora os discursos inflamados de Tony Blair) era o aumento das placas de advertência no transporte público, pedindo para que as pessoas prestassem atenção em “circunstâncias suspeitas” e chamassem os seguranças caso encontrassem alguma mala ou mochila abandonada.
Até as várias manifestações contra qualquer coisa, que aconteciam regularmente no centro naquelas semanas e tomavam Trafalgar Square, pareciam um ótimo programa de sábado à tarde para ela.

Manifestação em Trafalgar Square - verão de 2001 (Foto: Flavia Nogueira)Ok, talvez a cidade e o país estivessem mais tensos depois dos ataques, mas ela não prestava muita atenção. Tinha mais o que fazer: não poderia ficar para sempre no hotel em Bayswater, tinha que arrumar um lugar para morar. E, depois de arrumar um canto em um casarão meio decadente no final de Notting Hill (mais para Ladbroke Grove), tinha que se preocupar com a mudança.

Depois de (relativamente) instalada, decidiu sair numa manhã de sábado e passear até Greenwich (não, não iria dar o vexame de ficar com um pé no hemisfério leste e outro no oeste), talvez pegando o barco e indo pelo Tâmisa para aproveitar o dia de sol.

Subiu pela Portobello Road lotada de barracas de antiguidades (algumas nem tão antigas assim) e turistas e chegou à estação de metrô de Notting Hill, também lotada.

Desceu as escadarias sem fim (vou para a barriga da cidade, ela gostava de pensar) e encontrou uma área menos lotada da plataforma para esperar o trem.

Ao lado dela um sujeito usando um cachecol, estilo oriental. O cachecol naquele dia ainda quente de setembro chamou mais a atenção dela do que a grande mala, colocada no chão, entre eles.

Do outro lado da plataforma algumas pessoas olhavam para o homem, ela nem se abalava, ocupada demais olhando os mapas para chegar a Greenwich.

Até que ouviu o grito, ou o que parecia ser um grito, várias palavras em um idioma que nem ela, nem as pessoas à sua volta entendiam. Mas que soava ligeiramente árabe, ou talvez não, ninguém saberia dizer.

Quando ela levantou os olhos do mapa, conseguiu ver apenas o cachecol e o sujeito correndo para o outro extremo da plataforma. Quando ia voltar os olhos para o mapa, notou que a mala tinha ficado.

As outras pessoas também notaram a mala, logo ali, ao seu lado, no chão. Os olhos ficavam cada vez maiores, alguns já trombavam com outros tentando se afastar o mais rápido possível. Na plataforma em frente as pessoas tentavam recuar, outras só ficaram paradas, olhos arregalados, olhando para a mala, ou voltando os olhos para ela.

Naqueles poucos segundos que se arrastavam feito o trem atrasado ela pensou em sair correndo. Mas, ao ver o tamanho da mala, achou que não adiantaria. Simplesmente pensou:

Metrô de Notting Hill (Foto: Flavia Nogueira)“Que seja rápido, então.”

Puxou o fôlego, fechou os olhos e esperou por qualquer coisa enquando ouvia o burburinho aumentando à sua volta.

E então ouviu o que parecia ser uma briga, o som vindo do outro extremo da plataforma, cada vez mais próximo. Abriu um olho de cada vez, olhou primeiro para seus braços e pernas. Ainda estavam lá.

Olhou para o outro lado e viu vários seguranças do metrô arrastando o sujeito do cachecol de volta e, junto com eles, outro homem, parecido com o do cachecol, tentando explicar algo, naquela postura de “deixa disso”.

O grupo barulhento se aproximou, um dos seguranças pegou a mala, outro se dirigiu a ela.

“A senhorita está bem?”

Ela chacoalhou a cabeça num sinal afirmativo e teve a certeza que exibia a cara mais idiota do mundo.

“Ok, gente, podem ficar tranquilos, está tudo bem e o trem está chegando”, disse o segurança enquanto os outros arrastavam o sujeito do cachecol, a mala e o que parecia ser parente do sujeito do cachecol.

Ela amassou o mapa dentro da bolsa e decidiu que tinha que sair dali. Nas escadas rolantes, tentou rir da idiotice toda, mas a vergonha não deixava.

Quando finalmente chegou à rua, decidiu andar até Bayswater. Lá, ela continuou andando até chegar no Kensington Gardens.

O ar estava mais fresco no parque. Ela andou até se perder nas trilhas de grama alta, onde, ao invés de sentar, desabou como se tivesse andado a cidade inteira.

Procurou na bolsa o walkman, precisava ouvir o rádio, qualquer coisa para tentar esquecer o quase vexame coletivo na plataforma do metrô.

Ela não sabe se foi o vento fresco anunciando que a festa do calor ia acabar, ou se foi a música que tocava no rádio – Waterloo Sunset – e também não sabe se o que ela falou saiu alto e alguém ouviu, mas nem com isso ela se importava.

“Saudades de Londres…” 

Lanche de luxo

23 de fevereiro de 2010
Maio. Em qualquer lugar da Europa é mês de primavera, temperaturas amenas.
Estátua símbolo da Puerta del Sol (foto Flavia Luisa Nogueira)Não é o caso de Londres, onde pode chover e esfriar a qualquer momento. Definitivamente também não é o caso de Praga…
E também não é o caso de Madri, mas por motivos diametralmente opostos.
Eles caíram no aeroporto de Barajas arrancando todos os (poucos) agasalhos que usavam e socando na mochila.

Do aeroporto até o hotelzinho decente em Puerta del Sol foi aquela festa, com o nariz quase grudado no vidro para aproveitar ao máximo o céu azulzinho do começo da tarde.

Largaram as mochilas no quarto, pegaram mapas, guias e câmeras e foram para a rua.

´´Olha esse sol! Vê se a gente tem isso em Londres?! Isso é que é vida!“

E os dois saíram saltitantes vendo sol e céu azul pelas ruas de Madri. Andaram feito loucos, cada vez mais felizes com o calor que claramente incomodava os madrilenhos dentro de ônibus e carros.

Olham o prédio ali, sobem e descem a Calle de Alcalá, espiam o Arco de Alcallá, voltam para Calle Mayor, vão até a Gran Vía, ´´olha que lindo este por do sol!“, até a noite cair, as pernas doerem e os estômagos roncarem.Palacio de Comunicaciones (foto Flavia Luisa Nogueira)

Para comer, o primeiro lugar mais legal que eles tropeçaram: Plaza Mayor, com seus arcos, cafés, e restaurantes.

´´Comer o quê, com este calor, hein?´´

´´Vamos encher a cara de tapas! (as porções, não a agressão, por favor)´´

Já com as pernas bambas, os dois sentam na mesinha do café mais próximo e lá vem o garçom.

Eles começam bem simples: uma de jamón serrano e outra de queso manchego.

Se a fome aumentou o entusiasmo pelas porções de queijo e presunto, eles não sabem, mas tudo estava absolutamente delicioso.

Aí eles partiram para azeitonas e patatas bravas. E os calamares, e o pescado, tudo bem fritinho.

Escuro já estava, casais já dançavam na praça em troca de alguns euros. E eles resolveram arriscar na porção de polvo no que parecia um vinagrete, e mais uma de banderillas, os espetinhos sortidos.

Tapas vão, tapas vem e eles achando tudo lindo.

Já passava e muito das 21h30 e eles resolveram que era hora de pedir a conta e ir para o hotel, se preparar para a noite.

A conta vem. E junto com ela o choque e a sensação de abismo monetário se abrindo debaixo de seus pés.

´´CEM EUROS?!?! Meu Deus, o que foi que a gente fez?!“, ele pergunta como se tivessem apertado o botão para o início da guerra nuclear.

Ela olhava o papel muda, ainda tentando entender a situação. Eles se olham mais uma vez e, ainda com olhos arregalados, puxam os respectivos cartões e pagam, sem conseguir respirar direito.

Saem da praça caminhando, como sempre. Ele quebra o silêncio.

´´A gente pagou pela paisagem… A gente nunca mais vai comer na Plaza Maior!“Detalhe de edifício na Calle de Alcalá (foto Flavia Luisa Nogueira)

´´Nãnãnã! Errado! A gente nunca mais vai comer em MADRI! Não com este rombo que a gente arrumou logo no primeiro dia!“

De volta ao hotel ela ainda tenta fazer alguns cálculos. Mas chega à conclusão que só o lanchinho de tapas custou mais do que a sua mochila. Cheia.

Limpos da poeira e de boa parte do orçamento da viagem, eles voltam às ruas de Madri, cheias por causa da noite quente e da espanhola de um destes programas tipo American Idol que estava participando do concurso Eurovision.

Andam pra lá e pra cá, acompanham a torcida acirrada pela caloura nos bares da cidade (e ela me faz o favor de perder!).

Voltam de madrugada, acordam cedo para aproveitar ao máximo o sol (e depois se gabar da insolação made in Madri).

Museo del Prado, Reina Sofía, Palácio Real. Comer mesmo só no Museo del Jamón e de pé no balcão, para não gastar nem a bunda da calça jeans.

Andam mais, vão em parques aproveitar mais um pouco do sol, passam no Mercado de San Miguel (só pra olhar meeesmo!).

Fim de tarde, banho tomado e a dúvida do que fazer à noite.

´´Será que a gente podia pelo menos sentar para comer agora?“

Ela olha com aquela cara de ´´sei não…“.

´´Olha só, a gente explorou esta cidade inteira só na caminhada, não gastamos nada com transporte, o que foi até legal, ficamos coradinhos, vimos muita coisa legal…“

Ela olha pros lados de Calle Alcalá, tenta fazer mais cálculos. Mas, no fim desiste, com as pernas doloridas, a pele ardendo de sol e o estômago (sempre este maldito!) voltando a roncar.

Naquele calor absurdo eles não se importaram com mais nada, pediram uma sangria. E, só de birra, mandaram vir também uma paella, que onde já se viu visitar Madri e não comer paella?!
E fizeram tudo isto sentados.
 
 
Na Plaza Mayor.
 

 

Che in NY

4 de fevereiro de 2010
A famosa camiseta do Che Guevara. Ela ainda tem, perdida em algum fundo de alguma gaveta.
Vermelha, justa, com a famosa imagem do Che – aquela em que ele olha não se sabe para qual horizonte – pequena, em preto.

Foto - Flavia Luisa NogueiraNaquela manhã de sol em Nova York foi justamente esta camiseta que ela escolheu no meio da bagunça da mochila. E saiu.

Atravessou e resolveu seguir do lado do Central Park, pela Museum Mile, passou a 82nd Street e o Metropolitan (já tinha ido, no dia de chuva).
O destino agora era outro, ela queria fotografar o Guggenheim, em toda sua glória e concreto branco, debaixo do sol de abril.

Qual não foi o choque dela quando alcançou a 88th Street e, ao invés do prodígio criado por Frank Lloyd Wright todo brilhante, ela viu apenas ANDAIMES!!

Nada do prédio, tudo ficou embaixo daquele emaranhado de barras de ferro, plástico, lona, sei lá mais o que arrumaram ali

´´Não vou fotografar andaime, é desaforo!“

Entrou no museu pisando duro e deu de cara com o cartaz avisando sobre a reforma periódica para evitar rachaduras etc etc.

´´Tudo bem, acontece, tô viajando mesmo, vamos aproveitar o que temos e fotografar por dentro que também é bonito, vá lá…“

Fotografa daqui, de lá, lindas curvas brancas, corredores, o domo de vidro no alto (rotunda, sempre achou esta palavra engraçadíssima). Se encaminhou para a rampa, para fazer as fotos de cima para baixo.

E deu de cara com mais uma placa: A partir deste ponto, é proibido fotografar.

Se perguntou se alguém resolveu fazer piada com a cara dela, pendurou a velha Nikon no ombro e resolveu subir mesmo assim.

Subiu um nível, olhou quadros, subiu mais outro, mais quadros e foi assim até chegar no último.

Sem nem tocar na câmera ela se aproximou do balcão e olhou para baixo. Sem nem olhar para os lados, tentando fazer o máximo da cara de paisagem ela foi lentamente puxando a câmera para frente e quando estava com o olho no visor, ouviu a voz masculina, com um sotaque hispânico quase imperceptível.

´´A senhorita não pode fazer fotos aqui.“

Ela se virou e viu o segurança. E o segurança viu a sua cara de paisagem. E, ao baixar os olhos, viu a camiseta.

´´Eu amo este prédio, atravessei o Atlântico para vir aqui e só encontrei o Guggenheim coberto de andaimes“, disse ela sem irritação, sem choramingar, só com resignação.

Os dois lados se medem por alguns segundos. Ele volta a olhar a camiseta.

´´OK. Tá vendo a lojinha do museu, aqui neste andar mesmo? Vá até lá, dentro de dez minutos você volta e faça exatamente o que você tentou fazer, daquele jeito discreto e com esta cara aí. Não estarei por perto.“

Isto tudo foi falado muito baixo e muito rápido e ela obedeceu prontamente, mas sem correr. Mantendo a cara de quem nem nota o que se passa em volta.

Na lojinha, talvez por culpa, ela comprou um pacote de lápis do Guggenheim.

Dez minutos. Ela faz exatamente como ele mandou, tudo muito discretamente, contida. Chega perto do balcão, olha para baixo, puxa a câmera sem grandes gestos, aponta para baixo e faz a foto.Foto - Flavia Luisa Nogueira

Ele se aproxima segundos depois e repete em alto e bom som: ´´A senhorita não pode fazer fotos aqui.“

E, bem baixinho: ´´Conseguiu?“

Ela, baixinho: ´´Consegui!“. E num tom de voz normal: ´´Desculpe, não sabia que era proibido fotografar daqui.“

´´Pois é proibido!“. E, num tom baixo: ´´Bela camiseta!“

E se afastaram. Cada um sorrindo consigo. Ela viu mais quadros e achou tudo muito mais bonito, o sol entrando pelo domo de vidro, um lanche no restaurante do museu, de volta à rua e ao vento fresco. Mais caminhadas pela cidade, o povo apressado, o Central Park.

E no final da tarde ela vai para a Estação Grand Central, que já era sua preferida do mundo (sorry, Waterloo!).

Fim de tarde na Grand Central, fome de novo e uma enorme variedade de lugares legais dentro da própria estação para escolher. Ela quis um bagel e pediu em um balcão circular.

´´Bela camiseta!“, diz o atendente já servindo o bagel.

“Thanks!“, responde ela já mordendo o bagel que veio com muito recheio extra.

Ai!

19 de janeiro de 2010

Caí aqui. Aterrissagem mezzo turbulenta, mas não quebrei nada. Não que isso interesse.

Não sei se chamo este espaço onde caí de blog, não conheço a ferramenta, nunca fiz diário (tentei, mas não tinha paciência).

Então, este so called blog não pretende ser um guia de viagem, mas de vez em quando alguém vai encontrar algo útil. Se isso acontecer, beleza. Pra algo serve a minha queda aqui.

Por enquanto não vou especificar muito quem sou ou o que gosto. Isto vem aos poucos, se vier. Nem precisa ficar atento.

Mas, se alguém ficar curioso (curioso sempre tem, acho…), coloco uma foto. Que não é da minha carinha, mas é algo meu.

meu sinal

Pronto, taí algo relacionado comigo. Por enquanto tá de bom tamanho.

Então, vam´bora. Nada é cronológico, “tempo não é linear´´, alguém falou por aí, vai ter algumas histórias, contos, nada com números precisos (de repente, se minha memória ajudar, até rola), vamos pulando de um canto pra outro, com algumas fotos que fiz no caminho.

Divirtam-se com a queda!